terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Uma redacção muito inteligente... Que pena não ser meu!

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Fernanda Braga da Cruz

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ao meu irmão...

Já escondi um amor com medo de perdê-lo,
Já perdi um amor por escondê-lo....
Já segurei nas mãos de alguém por estar com medo,
Já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida,
Já me arrependi por isso...
Já passei noites chorando até pegar no sono,
Já fui dormir tão feliz,
Ao ponto de nem conseguir fechar os olhos...
Já acreditei em amores perfeitos,
Já descobri que eles não existem...
Já amei pessoas que me decepcionaram,

Já decepcionei pessoas que me amaram...
Já passei horas na frente do espelho
Tentando descobrir quem sou,
Já tive tanta certeza de mim,
Ao ponto de querer sumir...
Já menti e me arrependi depois,
Já falei a verdade
E também me arrependi...
Já fingi não dar importância a pessoas que amava,
Para mais tarde chorar quieto em meu canto...
Já sorri chorando lágrimas de tristeza,
Já chorei de tanto rir...
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena,
Já deixei de acreditar nas que realmente valiam...
Já tive crises de riso quando não podia...
Já senti muita falta de alguém,
Mas nunca lhe disse...
Já gritei quando deveria calar,
Já calei quando deveria gritar...
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns,
Outras vezes falei o que não pensava para magoar outros...
Já fingi ser o que não sou para agradar uns,
Já fingi ser o que não sou para desagradar outros...
Já contei piadas e mais piadas sem graça,

Apenas para ver um amigo mais feliz...
Já inventei histórias de final feliz
Para dar esperança a quem precisava...
Já sonhei demais,
Ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro,
Hoje no escuro "me acho..me agacho..fico ali"...
Já caí inúmeras vezes
Achando que não iria me reerguer,
Já me reergui inúmeras vezes
Achando que não cairia mais...
Já liguei para quem não queria
Apenas para não ligar para quem realmente queria...
Já corri atrás de um carro,
Por ele levar alguém que eu amava embora.
Já chamei pela mãe no meio da noite
Fugindo de um pesadelo,
Mas ela não apareceu
E foi um pesadelo maior ainda...
Já chamei pessoas próximas de "amigo"
E descobri que não eram;
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada
E sempre foram e serão especiais para mim...
Não me dêem fórmulas certas,
Porque eu não espero acertar sempre...
Não me mostre o que esperam de mim,
Porque vou seguir meu coração!...
Não me façam ser o que eu não sou,
Não me convidem a ser igual,
Porque sinceramente sou diferente!...
Não quero amar pela metade,
Não quero viver de mentiras,
Não quero voar com os pés no chão...
Quero poder ser sempre eu mesmo,
Mas com certeza não serei o mesmo para sempre

Ary dos Santos

domingo, 20 de janeiro de 2008

Cântigo Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Poemas de Deus e do Diabo - José Régio

Minha MÃE linda...

MÃE QUERIDA
Um dia eu sei
voltarei de novo aqui
Disse quando te deixei, me prometi
O teu rosto e o teu olhar,
tu podes crer
Por mais que eu queira bem sei, não vou esquecer
Tantas terras percorri no meu caminho
E tantas vezes por ti chorei sózinho
Hoje estás só, ainda bem, eu volto aqui
Não chores mais tens alguém perto de ti
Muitas mulheres (homem) eu sei vou ter na vida
Mas mãe só uma eu terei, minha mãe querida
Se hoje precisas de mim, eu aqui estou
Princesa linda sem fim que me criou
Tanto na vida sofreste para me criar
Tantas vezes não comeste para me dar
Hoje velhinha(ainda não é muito!)
estás querida mãezinha
Mas para mim
sempre serás tu a mais linda

Tony Carreira (com as minhas adaptações!)

Segue o teu destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te.

A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis

Para o meu Toninho...

Uma Semente

Se houvesse uma semente
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim

E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter-te a ti

Se houvesse uma semente
Que eu pudesse semear
Eu fazia um canteiro
No melhor do meu jardim
Protegia-o da geada
Dava-lhe o sol a beijar
Tratava do meu canteiro
Como se fosse de mim

E se a flor tivesse as cores
E os reflexos da tua voz
Se tivesse o mesmo cheiro
E o porte que já te vi
Acreditas que eu teria
Plantada no meu jardim
Pintada na minha alma
Se não te posso ter-te a ti

Luis Portugal

Domingo... Um dia estúpido...

Hoje é Domingo...
É um dia como tantos outros... não fosse hoje, um dia em que muitas recordações, me chegam à cabeça em trobilhão...
Não consigo recordar o que fazia à um ano... Mas consigo recordar o que fazia à 5 anos...
Morreu o meu padrinho... Uma presença forte no meu crescer... que de muitas maneiras marcou a minha forma de ser e de estar na vida...
Recordo com saudade todos os momentos em que vivi com ele...
Apanhar o autocarro... o 33 e que paráva no Campo Grande para ir à piscina... ou andar nos carros no Caleidoscópio... Os gelados que comia às escondidas da minha mãe... as vezes em que ele me ia buscar ao infantário na Igreja de Benfica... Pelas 16h30 pendurava-me nas grades e esperava ansiosamente ver a sua careca... com uma gabardine creme... a andar devagar como se pensasse no que a vida lhe trouxe... e no prazer de contribuir para a minha felicidade... Agarrada pela mão... a querer andar sempre mais frente ... a puxá-lo de forma a ele apanhar o meu ritmo... com pressa de chegar a todos os lados ... mas principalmente de chegar ao Café Poço... de ver o Sr. Zé ou o Sr. João... e pedir-lhe um Rajá... Comer depressinha para que a minha mãe não chegasse à janela e me apanhasse...
Depois veio a doença... ajudar a levantar, a fazer o prato da refeição, a dar banho, a ajudar a fazer tudo...
E o inverso aconteceu... Comecei eu, a esperar por ele... a ver se vinha lá à esquina... a espreitar se a sua caminhada, em esforço, chegaria ao fim... A esperar por ele no café... Para juntos tomármos o café a seguir ao almoço...Como se fosse um verdadeiro ritual!!
Mas por incrivel que pareça... Continuo com a sensação de que em qualquer esquina ele vai aparecer de repente com a sua careca... com a gabardine creme e agarrar-me pela mão e levar-me para casa... em segurança...
Realmente o tempo passa... Tanta coisa aconteceu na minha vida desde esse tempo... A minha vida já deu tantas voltas... E desconfio que vai continuar a dar mais voltas...
Que saudades daqueles tempos... onde nada me afligia... onde as contas ao final do mês não tinham importância... onde o mais importante era aguardar calmamente pelas férias grandes - o Penhascoso! A liberdade total.... Onde podia andar sozinha... Fazer o que me dava na telha...
Acho que é essa a verdadeira ligação entre mim e aquela terra!
Pergunto-me porque gosto tanto daquilo? Até porque não tem nada de especial... Uma aldeia perdida no meio de Portugal... igual a tantas outras... paradas no tempo... onde o tempo passa ao lado... onde as pessoas continuam agarradas a um marasmo que não as deixa seguir em frente... É certo que ali cresci... mas como é típico de locais pequenos, todos sabem de tudo e de todos... e eu não sou excepção... Uma terra... que também muita tristeza me trouxe... ou melhor... as pessoas... É certo que foram apenas algumas... mas marcaram-me de uma forma tão negativa... que já cheguei a sentir o sabor da raiva a nascer-me nos dentes... Com vontade de gritar e perguntar-lhes: afinal a vossa vida não vos chega? o que querem de mim? eu sou assim! Deixem-me em paz! Enfim... O tempo tudo trata! Cura... mesmo!
Hoje, depois, deste tempo todo... quando regresso .... entendo que afinal tenho saudades de coisas tão simples como, o cheiro da terra molhada durante um grande pé de água em pleno Verão... e de algumas pessoas... do meu canto... do tempo que ali vivi... do céu... e das árvores... Mas realmente olho para aquela terra e penso... nunca poderia ficar por aqui: Desculpa!
Não podia mesmo... tudo me parece demasiado pequeno... a terra ... as pessoas... e as estradas... Mas adoro regressar... ou, se calhar, adoro saber que vou embora, mas que posso voltar!
Lembrar-me do meu padrinho - António de Matos - que tanto fez pela sua terra natal ... mas que também... se foi embora!E que também a ele o tratou mal! É também, lembrar-me da terra que o viu nascer... e a mim também...
Não sei como será o futuro... Mas sei que ali... um pedaço de terra perdida no Mundo... eu tenho o meu canto... Que com todos os seus defeitos e qualidades é o meu canto!
Padrinho que saudades eu tenho de ti!
Chorar não adianta... Mas as lágrimas escorrem pela cara... Desculpa se te desapontei em algum momento... Eu sei que aonde tu estiveres... estás a olhar por mim... Por favor: Olha mesmo por mim!
Deus te guarde! Adeus meu amigo! Eu estou aqui!

sábado, 19 de janeiro de 2008























Algumas Fotos 2007


Isto tem piada...

Sempre tive muitas dúvidas e suspeitas sobre os blogs...
Assusta-me o facto de qualquer pessoa ter acesso à privacidade do outro...
Contudo...Acho que estou a tomar-lhe o gosto...
Vivo um período complicado...Sem saber muito bem para onde vou... Ou melhor...Ando ao sabor do vento...
Ter ficado sem emprego deixou-me sem chão...
E principalmente da forma que foi... Ai se isto tivesse acontecido em Portugal...talvez isto tivesse outras consequências...
Mas aqui... É o contrário...
O que para mim é normal... afinal descobri que é anormal...
O que para mim é anormal... afinal descobri que é normal...
Tenho dias muito duros... Com vontade de apanhar o primeiro avião e correr para o colo da minha mãe...
Mas também tenho dias em que sinto um orgulho enorme de aqui estar...
A realidade deste povo ... ajuda-me a crescer demasiado rápido... De uma forma tão intensa que dou por mim a pensar: "Aonde isto me vai levar?"
Tenho tantas histórias!
Hoje foi só inicio...
Temo pela minha memória...
É preciso escrevê-las...
Uhmmm

Explosão no Paiol

Odete, 5 anos
A mais nova de 3 irmãos
Era a única que ainda não vai à escola
A distância mais longe que percorreu foi até ao fim da rua
Onde mora a prima
Brincava à entrada da sua casa
e esperava que os irmãos e pais cheguem a casa...
Começou a ver toda a gente a correr
Não sabia o que era
E correu também...
Mas sem saber para onde...
Alguém a agarrou pela mão
De chapa chegou ao Hospital Central
Começou a chorar e nunca mais parou
O choro mistura-se com os gritos de pânico
De quem tem consciência do que se está a passar...
Feridos chegam de todas as formas
Todos procuram entre as vítimas um sinal
O sangue cai por uma mão que procura ajuda
Deposita a sua vida num sopro de esperança
E pergunta ao médico: Viu a minha Sheimila?
Sem saber que resposta dar
Avança rapidamente para um mundo estranho
Sem saber o que vai acontecer
Odete agarra a bata... Puxa e volta a puxar
E pergunta: Viu a minha mãe?
Chora compulsivamente como se estivesse a perceber o que está a acontecer
Uma mama agarra-a e tenta acalma-la
Todos choram
Homens, mulheres, crianças
De todas as idades e religiões
Aparecem pessoas de todos os lados
Uns procuram... outros querem ajudar
Todos ajudam
Apenas querem ajudar
O cheiro a queimado, a pólvora e o éter
É o oxigénio que se respira
A confusão está instalada
O caos é visível em qualquer esquina ou beco
A informação que se quer não chega
O pânico abunda
Absorve tudo e todos
Ninguém quer saber sobre o paiol
Apenas se quer encontrar um pai, uma mãe, um filho...um familiar ou amigo
Famílias que não se encontram
Casas destruídas
Os que sobrevivem às explosões
Não sabem o que fazer
O devaneio toma conta das cabeças
Dormem à beira das estradas
Como se fosse uma capulana às riscas
Confundem-se entre eles
Não se sabe quem está vivo ou morto
As horas passam
E continua-se sem saber nada
O sol dá o ar da sua graça
A esperança aumenta com a luminosidade
Como se as respostas fossem surgir a qualquer momento
A manhã avança
A realidade torna-se crua
Os escombros estão à vista
Os corpos espalhados por todos os lados
À mistura com os projécteis
De todas as formas e feitios
As crianças não sabem se brincam ou fogem
As pessoas tomam consciência
Querem as suas vidas de volta
Mas quem sabe...
Sabe que vai demorar
E as famílias inteiras que se perderam
Por aqui vão continuar
A aceitar da forma sofredora
Que só moçambicano sabe!
Os próximos dias vão correr em sabor mais lento
E os desaparecidos ou aparecem ou desaparecem para sempre
À procura da pérola do Indico...
Mas sempre
Sempre com um sorriso na cara

Pipoca e Consciência - Uma ideia

Este blog surge de um dia pesado... onde tudo aconteceu... e em conversa com a minha Consciência... decidimos ver o que seria isto de ter um blog...
Pode ser que ajude...
Todos temos dias maus... mas também temos dias bons...
Daí que pensámos... Para que gastar dinheiro em psicologos e psiquiatras para falar das nossas "coisas" se ambas nos conhecemos tão bem... e podemos desabafar aqui sem que ninguém nos aponte o dedo????
Assim... TERAPIA....
Será o espaço de consulta para nós...
Um espaço que é nosso e apenas nosso...
Onde cada uma dirá...escreverá... o que lhe apetecer....
Assim podemos falar do que nos vai na alma...
Certo?

Expedição Ultramarina

Dizem que o sonho comanda a vida....
Será?
Tem dias...
Dias em que acredito profundamente
Mas tenho outros dias em que só estou bem onde não estou!
Crescer custa...doi...
Não sei...
Alguns dias sinto-me a pessoa mais só deste mundo... Mesmo estando rodeada de gente...
Gente que eu sei que são meus amigos....
Outros que nem sei nem quero saber...
Esta minha aventura em que embarquei sem olhar para trás...
Por terras que nunca imaginei existirem
Acordo à noite, as lágrimas correm sem saber qual o caminho a seguir
Mas como alguém dizia... Não sei para onde vou...Só vou para onde os meus próprios passos me levam...Mas sei que não vou por ai...
Às vezes custa é saber
Mas depois o dia chega ao fim...
E o sabor de que mais um dia passou...
Por que será que estamos sempre tão insatisfeitos com o que temos...
Esta condição humana de quer mais... e sempre mais...
Será que algum dia será diferente?
Não sei...Mas sei que é isto que eu quero...
Continuar esta luta... e vencer...
Um dia quero poder olhar para trás e ver o que foi esta minha aventura
E nem sequer pensar:
E SE....
Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade de um filho que estuda fora.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu, do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se menor,
Ou quando alguém ou algo não deixa que esse amor siga,
Ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa daquela maniade estar sempre ocupada;
se ele tem assistido às aulas de inglês,
se aprendeu a entrar na Internet encontrar a página do Diário Oficial;
se ela aprendeu a estacionar entre dois carros;
se ele continua preferindo Malzebier;
se ela continua preferindo suco;
se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;
se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor;
se ele continua cantando tão bem;
se ela continua detestando o MC Donald's;
se ele continua amando;
se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos;
não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento;
não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro, e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz, e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso...
É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim doer;
Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo
E o que você, provavelmente, está sentindo agora depois que acabou de ler...
Texto do Miguel Falabella publicado no jornal O Globo