Hoje é Domingo...
É um dia como tantos outros... não fosse hoje, um dia em que muitas recordações, me chegam à cabeça em trobilhão...
Não consigo recordar o que fazia à um ano... Mas consigo recordar o que fazia à 5 anos...
Morreu o meu padrinho... Uma presença forte no meu crescer... que de muitas maneiras marcou a minha forma de ser e de estar na vida...
Recordo com saudade todos os momentos em que vivi com ele...
Apanhar o autocarro... o 33 e que paráva no Campo Grande para ir à piscina... ou andar nos carros no Caleidoscópio... Os gelados que comia às escondidas da minha mãe... as vezes em que ele me ia buscar ao infantário na Igreja de Benfica... Pelas 16h30 pendurava-me nas grades e esperava ansiosamente ver a sua careca... com uma gabardine creme... a andar devagar como se pensasse no que a vida lhe trouxe... e no prazer de contribuir para a minha felicidade... Agarrada pela mão... a querer andar sempre mais frente ... a puxá-lo de forma a ele apanhar o meu ritmo... com pressa de chegar a todos os lados ... mas principalmente de chegar ao Café Poço... de ver o Sr. Zé ou o Sr. João... e pedir-lhe um Rajá... Comer depressinha para que a minha mãe não chegasse à janela e me apanhasse...
Depois veio a doença... ajudar a levantar, a fazer o prato da refeição, a dar banho, a ajudar a fazer tudo...
E o inverso aconteceu... Comecei eu, a esperar por ele... a ver se vinha lá à esquina... a espreitar se a sua caminhada, em esforço, chegaria ao fim... A esperar por ele no café... Para juntos tomármos o café a seguir ao almoço...Como se fosse um verdadeiro ritual!!
Mas por incrivel que pareça... Continuo com a sensação de que em qualquer esquina ele vai aparecer de repente com a sua careca... com a gabardine creme e agarrar-me pela mão e levar-me para casa... em segurança...
Realmente o tempo passa... Tanta coisa aconteceu na minha vida desde esse tempo... A minha vida já deu tantas voltas... E desconfio que vai continuar a dar mais voltas...
Que saudades daqueles tempos... onde nada me afligia... onde as contas ao final do mês não tinham importância... onde o mais importante era aguardar calmamente pelas férias grandes - o Penhascoso! A liberdade total.... Onde podia andar sozinha... Fazer o que me dava na telha...
Acho que é essa a verdadeira ligação entre mim e aquela terra!
Pergunto-me porque gosto tanto daquilo? Até porque não tem nada de especial... Uma aldeia perdida no meio de Portugal... igual a tantas outras... paradas no tempo... onde o tempo passa ao lado... onde as pessoas continuam agarradas a um marasmo que não as deixa seguir em frente... É certo que ali cresci... mas como é típico de locais pequenos, todos sabem de tudo e de todos... e eu não sou excepção... Uma terra... que também muita tristeza me trouxe... ou melhor... as pessoas... É certo que foram apenas algumas... mas marcaram-me de uma forma tão negativa... que já cheguei a sentir o sabor da raiva a nascer-me nos dentes... Com vontade de gritar e perguntar-lhes: afinal a vossa vida não vos chega? o que querem de mim? eu sou assim! Deixem-me em paz! Enfim... O tempo tudo trata! Cura... mesmo!
Hoje, depois, deste tempo todo... quando regresso .... entendo que afinal tenho saudades de coisas tão simples como, o cheiro da terra molhada durante um grande pé de água em pleno Verão... e de algumas pessoas... do meu canto... do tempo que ali vivi... do céu... e das árvores... Mas realmente olho para aquela terra e penso... nunca poderia ficar por aqui: Desculpa!
Não podia mesmo... tudo me parece demasiado pequeno... a terra ... as pessoas... e as estradas... Mas adoro regressar... ou, se calhar, adoro saber que vou embora, mas que posso voltar!
Lembrar-me do meu padrinho - António de Matos - que tanto fez pela sua terra natal ... mas que também... se foi embora!E que também a ele o tratou mal! É também, lembrar-me da terra que o viu nascer... e a mim também...
Não sei como será o futuro... Mas sei que ali... um pedaço de terra perdida no Mundo... eu tenho o meu canto... Que com todos os seus defeitos e qualidades é o meu canto!
Padrinho que saudades eu tenho de ti!
Chorar não adianta... Mas as lágrimas escorrem pela cara... Desculpa se te desapontei em algum momento... Eu sei que aonde tu estiveres... estás a olhar por mim... Por favor: Olha mesmo por mim!
Deus te guarde! Adeus meu amigo! Eu estou aqui!
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