sábado, 19 de janeiro de 2008

Explosão no Paiol

Odete, 5 anos
A mais nova de 3 irmãos
Era a única que ainda não vai à escola
A distância mais longe que percorreu foi até ao fim da rua
Onde mora a prima
Brincava à entrada da sua casa
e esperava que os irmãos e pais cheguem a casa...
Começou a ver toda a gente a correr
Não sabia o que era
E correu também...
Mas sem saber para onde...
Alguém a agarrou pela mão
De chapa chegou ao Hospital Central
Começou a chorar e nunca mais parou
O choro mistura-se com os gritos de pânico
De quem tem consciência do que se está a passar...
Feridos chegam de todas as formas
Todos procuram entre as vítimas um sinal
O sangue cai por uma mão que procura ajuda
Deposita a sua vida num sopro de esperança
E pergunta ao médico: Viu a minha Sheimila?
Sem saber que resposta dar
Avança rapidamente para um mundo estranho
Sem saber o que vai acontecer
Odete agarra a bata... Puxa e volta a puxar
E pergunta: Viu a minha mãe?
Chora compulsivamente como se estivesse a perceber o que está a acontecer
Uma mama agarra-a e tenta acalma-la
Todos choram
Homens, mulheres, crianças
De todas as idades e religiões
Aparecem pessoas de todos os lados
Uns procuram... outros querem ajudar
Todos ajudam
Apenas querem ajudar
O cheiro a queimado, a pólvora e o éter
É o oxigénio que se respira
A confusão está instalada
O caos é visível em qualquer esquina ou beco
A informação que se quer não chega
O pânico abunda
Absorve tudo e todos
Ninguém quer saber sobre o paiol
Apenas se quer encontrar um pai, uma mãe, um filho...um familiar ou amigo
Famílias que não se encontram
Casas destruídas
Os que sobrevivem às explosões
Não sabem o que fazer
O devaneio toma conta das cabeças
Dormem à beira das estradas
Como se fosse uma capulana às riscas
Confundem-se entre eles
Não se sabe quem está vivo ou morto
As horas passam
E continua-se sem saber nada
O sol dá o ar da sua graça
A esperança aumenta com a luminosidade
Como se as respostas fossem surgir a qualquer momento
A manhã avança
A realidade torna-se crua
Os escombros estão à vista
Os corpos espalhados por todos os lados
À mistura com os projécteis
De todas as formas e feitios
As crianças não sabem se brincam ou fogem
As pessoas tomam consciência
Querem as suas vidas de volta
Mas quem sabe...
Sabe que vai demorar
E as famílias inteiras que se perderam
Por aqui vão continuar
A aceitar da forma sofredora
Que só moçambicano sabe!
Os próximos dias vão correr em sabor mais lento
E os desaparecidos ou aparecem ou desaparecem para sempre
À procura da pérola do Indico...
Mas sempre
Sempre com um sorriso na cara

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